A propósito das últimas eleições: alguém ouviu falar do PND?
Depois do 1º Congresso do Partido da Nova Democracia (PND), realizado em Famalicão, ficámos todos a saber que este novo Partido, que se propõe renovar a democracia portuguesa poderá, no futuro, ser acusado de muitas coisas mas nunca de não ouvir os portugueses. Com efeito, a capacidade auditiva para auscultar a pátria parecia ser a grande aposta de Manuel Monteiro e seus correligionários. O recém-eleito líder do recém-constituído Partido fez questão de o referir no seu discurso de tomada de posse, repetindo para quem não o tivesse ouvido à primeira - o PND ouvirá os portugueses mas, nunca se sabe, os portugueses podem não ouvir o partido - que o ouvido nunca faltará a esta jovem força política.
Claro está, na altura pouco se ouviu sobre o conteúdo programático do Partido. Ninguém soube qual o seu campo ideológico ou doutrinário, nem se vislumbrou um projecto para o país. Mas nada disto importava. A estratégia do PND éra crítica e não pró-activa. Quer isto dizer que o Partido foi constituído, sobretudo, para dar uma plataforma a Manuel Monteiro para regressar à vida política portuguesa, impedindo dessa forma que o ex-líder do CDS/PP entrasse para o cemitério da política portuguesa.
Constituído à margem do Parlamento, como jovem Partido que é, e desejoso de lá entrar, ao PND apenas restava o colocar em causa do próprio sistema e os partidos que dele e nele vivem. Como não possui ideologia ou programa, como não sabe em concreto o que quer para o país, a este Partido apenas restava algo que se aproximava dos discursos da decadência do sistema político, tão em voga em determinados momentos da nossa história, sobretudo após a 1ª grande guerra, quando vários movimentos políticos, à direita e à esquerda, reivindicaram a decadência do sistema democrático, à época demo-liberal. E todos nos recordamos das consequências.
Com as devidas distâncias, o PND adoptou um discurso algo semelhante. Para os monteiristas - poderemos chamá-los assim? - A política portuguesa está podre e os partidos que habitam essa podridão não defendem o país e os portugueses. Surge, assim, o nome dado a este Partido - Nova Democracia, como se Manuel Monteiro e os monteiristas tivessem, de uma penada, suplantado o pensamento democrático ocidental, reinventando um património que levou mais de dois mil anos a construir.
Mas tentemos compreender melhor este novo Partido. Talvez Manuel Monteiro queira colocar em causa a forma de fazer política em Portugal e não o sistema propriamente dito. Sendo assim, teremos de acreditar no virtuosismo do líder, eticamente superior aos restantes políticos portugueses, e o único interessado em defender o povo português. Claro está, para que esta operação tenha sucesso há que fazer cair no esquecimento o populismo e a demagogia que pautaram o comportamento de Manuel Monteiro enquanto líder do Partido Popular.
Mas eis que vieram as eleições, e, se ao país tem faltado a chuva, o PND foi varrido da cena política portuguesa por uma enxurrada. A Manuel Monteiro e seus sequazes apenas resta a consolação do "Paulinho das Feiras", herói mítico de todos os feirantes deste país e arqui-rival de Monteiro ter, igualmente, registado um resultado eleitoral medíocre.
Contudo, se a Monteiro os portugueses tentaram passar, esperamos com sucesso, um atestado de óbito político, ao herói feirante a coisa fia mais fino. Se este renascer como Lázaro - assim parece desejar o PP - Monteiro perderá a única vitória que estas eleições, aparentemente, lhe ofereceram. Tendo em consideração a mediocridade de Portas, neste ponto estamos solidários com o líder do PND. Força rapaz!

