Quarta-feira, Março 02, 2005

Pedro S (19:00)

A propósito das últimas eleições: alguém ouviu falar do PND?

Depois do 1º Congresso do Partido da Nova Democracia (PND), realizado em Famalicão, ficámos todos a saber que este novo Partido, que se propõe renovar a democracia portuguesa poderá, no futuro, ser acusado de muitas coisas mas nunca de não ouvir os portugueses. Com efeito, a capacidade auditiva para auscultar a pátria parecia ser a grande aposta de Manuel Monteiro e seus correligionários. O recém-eleito líder do recém-constituído Partido fez questão de o referir no seu discurso de tomada de posse, repetindo para quem não o tivesse ouvido à primeira - o PND ouvirá os portugueses mas, nunca se sabe, os portugueses podem não ouvir o partido - que o ouvido nunca faltará a esta jovem força política.

Claro está, na altura pouco se ouviu sobre o conteúdo programático do Partido. Ninguém soube qual o seu campo ideológico ou doutrinário, nem se vislumbrou um projecto para o país. Mas nada disto importava. A estratégia do PND éra crítica e não pró-activa. Quer isto dizer que o Partido foi constituído, sobretudo, para dar uma plataforma a Manuel Monteiro para regressar à vida política portuguesa, impedindo dessa forma que o ex-líder do CDS/PP entrasse para o cemitério da política portuguesa.

Constituído à margem do Parlamento, como jovem Partido que é, e desejoso de lá entrar, ao PND apenas restava o colocar em causa do próprio sistema e os partidos que dele e nele vivem. Como não possui ideologia ou programa, como não sabe em concreto o que quer para o país, a este Partido apenas restava algo que se aproximava dos discursos da decadência do sistema político, tão em voga em determinados momentos da nossa história, sobretudo após a 1ª grande guerra, quando vários movimentos políticos, à direita e à esquerda, reivindicaram a decadência do sistema democrático, à época demo-liberal. E todos nos recordamos das consequências.

Com as devidas distâncias, o PND adoptou um discurso algo semelhante. Para os monteiristas - poderemos chamá-los assim? - A política portuguesa está podre e os partidos que habitam essa podridão não defendem o país e os portugueses. Surge, assim, o nome dado a este Partido - Nova Democracia, como se Manuel Monteiro e os monteiristas tivessem, de uma penada, suplantado o pensamento democrático ocidental, reinventando um património que levou mais de dois mil anos a construir.

Mas tentemos compreender melhor este novo Partido. Talvez Manuel Monteiro queira colocar em causa a forma de fazer política em Portugal e não o sistema propriamente dito. Sendo assim, teremos de acreditar no virtuosismo do líder, eticamente superior aos restantes políticos portugueses, e o único interessado em defender o povo português. Claro está, para que esta operação tenha sucesso há que fazer cair no esquecimento o populismo e a demagogia que pautaram o comportamento de Manuel Monteiro enquanto líder do Partido Popular.

Mas eis que vieram as eleições, e, se ao país tem faltado a chuva, o PND foi varrido da cena política portuguesa por uma enxurrada. A Manuel Monteiro e seus sequazes apenas resta a consolação do "Paulinho das Feiras", herói mítico de todos os feirantes deste país e arqui-rival de Monteiro ter, igualmente, registado um resultado eleitoral medíocre.

Contudo, se a Monteiro os portugueses tentaram passar, esperamos com sucesso, um atestado de óbito político, ao herói feirante a coisa fia mais fino. Se este renascer como Lázaro - assim parece desejar o PP - Monteiro perderá a única vitória que estas eleições, aparentemente, lhe ofereceram. Tendo em consideração a mediocridade de Portas, neste ponto estamos solidários com o líder do PND. Força rapaz!

Assim falava Zaratrusta

Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005

blog sobre Egas Moniz

Pedro S. (18:35)
blog do meu amigo Manuel Correia
http://egasmoniz.blogspot.com

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005

E no princípio era o verbo...

Pedro S. (15:25)

...e Zaratustra caminhou sozinho pelo precipício que ele próprio criou. Ao olhar mais uma vez para trás de si, viu como Deus, agora moribundo, parecia sorrir.

- «Porque sorris, maldito? Não morreste pelas minhas mãos, não foi preciso muito para que os homens te renegassem. Por acaso pensas que fui eu que os convenci que estavas morto e enterrado? Não foi preciso dar-me ao trabalho, infelizmente não fui necessário. Digo infelizmente não por pena de ti, mas porque, confesso, dar-me-ia um enorme gozo forçar a lápide na tua tumba. Mas os homens não precisaram de mim... Porque sorris maldito? Vá, responde!?»

- «Queres mesmo saber? Faço-te a vontade, então. Sabes?, nesse caminho que tomaste encontrarás um país estranho, diferente do que conheces e, mais que provável, diferente do que possas vir a conhecer. Chama-se Portugal e os seus habitantes são fruto do acaso, ou melhor, de um cruzamento entre o acaso e coisa nenhuma. Portugal é um erro da Matrix. Se não existissem portugueses tudo seria diferente, mas não é o caso. Tem em atenção que este curioso povo justifica o insucesso do país – e, desde logo, dele próprio – face ao exterior (à Europa comunitária, a única que os preocupa), pela exígua dimensão do território, ou por estar na periferia de tudo e de todos, e consequentemente da Europa dos Mercados que, assim, tanta dificuldade têm para circular pelo espaço lusitano.

«Não esquecer a herança do salazarismo, que tanto lhes pesa sobre os ombros e que serve para se desculparem de toda a incompetência inimaginável – e no que toca à incompetência deste povo... Bom, deixa-me dizer-te... posso tratar-te por tu não posso, afinal já lá vão uns anos..

- «Podes, podes... Vá lá!»

- «Bem, como dizia, no que toca à incompetência deste povo encontrarás uma enorme criatividade. Por exemplo: por vezes temos dias em que tudo nos corre mal, mas para este povo tudo corre mal todos os dias, claro está que é por isso que as coisas não saem bem; por vezes estamos tristes, desanimados, mas este povo está desanimado na animação que sente, e por isso não se controla o suficiente para produzir seja o que for. Além disso, ainda no que toca à incompetência, são ambidextros.

- «Ambidextros?»

- «Sim, ambidextros, a incompetência existe à esquerda e à direita, o que é bom porque assim ninguém precisa de aprender a ser incompetente com a outra mão, lembras-te do que faziam aos canhotos, davam-lhes uns cadernos para treinar a letra...

- «Pára mas é lá com isso, já sei que tens sentido de humor, continua mas é com a estória.

- «Como queiras. Pois dir-te-ei que acima de tudo, a Portugal falta imaginação e dialéctica. Façamos um pequeno exercício: olhemos para a classe política que tem, em democracia, governado este país e procuremos um rasgo que seja de imaginação. Permite-me avançar com a resposta: aos políticos portugueses não se acende a luz dos tempos e do génio. Nada lhes é mais desconhecido. Creio que alguns, mais responsáveis, terão olhado várias vezes para o alto procurando essa pequena luz que indica a presença da inteligência, ou pelo menos de uma ideia que seja, mas nada. Nada de nada.

«É, infelizmente, um país sem dialéctica. São todos quase iguais, quase todos católicos, quase todos morenos, e quase todos pessimistas e com propensão para a nostalgia. Antes assim não fosse. Os poucos que não correspondem à maioria qualificada que determina a espinha dorsal deste país – propensa a curvaturas vertebrais –, os poucos que não vão a Fátima quando lhes dói os pés, esperando que a virgem deles se compadeça e lhes dê a graça de uma cura para as micoses, esses poucos portugueses não interessam, pois não dão audiências.

«Se Portugal fosse um país dialéctico, em que os contrários, opondo-se permitissem uma qualquer espécie de síntese, talvez tudo se nos apresentasse diferente, mas talvez já não fosse Portugal.

«À classe política de que falo, a tal que não possui imaginação, também falta capacidade prospectiva. Quer isto dizer que estes governantes governam, passe a redundância, (Deus às vezes também é redundante), no curto prazo, no imediato, com base no que as sondagens lhes dizem. Esta governação do quotidiano é, de facto, necessária, mas não chega. É imperativo governar-se com base no médio e longo prazo. Mas para que tal seja possível, a classe política portuguesa deve olhar para o mundo e para o seu país; de seguida deve tentar perceber ambas as dimensões – mas e a inteligência para o fazer? – E, finalmente, com base na análise feita anteriormente, percebendo as virtudes e carências de Portugal, percebendo o que o mundo em que estamos inseridos nos exige, conseguir traçar um projecto de país. A isto chama-se capacidade prospectiva. Algo que não esse povo de que te falo não possui.

- «Mas é tudo assim tão mau? Conheço alguma coisa desses portugueses de que falas, dos livros de História, mas estou desactualizado. Sei que emigravam muito... não me estás a enganar?»

- «Não, não estou. Quando lá chegares começa por ouvir os seus governantes, verás se tenho ou não razão. Normalmente estigmatizam o povo utilizando o discurso sobre as competências, ou não-competências dos portugueses. Confesso-te que é um pouco saturante, estou um pouco farto.»

- «Mas ouve lá, não me acabaste de dizer que são todos incompetentes? Que a incompetência era ambidextra ou lá o que era? Se é assim, então fazem muito bem em estigmatizá-los. Pode ser que arrebitam... gosto desta palavra, não sei porquê, arrebita, arrebita, arrebita...

- «Para lá com isso, estás cada vez mais parvo, já em criança...»

- «Nada disso, não vale usar a omnisciência, ou omnipresença ou lá o que é, não querias mais nada. Sei que me conheces desde pequenino. Continua, se fazes favor.»

- «Está bem. Digo-te que estou um pouco farto, sobretudo por ser um discurso recorrente, já velho e gasto de tanto ser usado quer por este quer pelos anteriores governos. Sempre que a economia estagna, sempre que constatam que a produtividade está a milhas dos parceiros europeus - que, curiosamente, trabalham menos horas e auferem salários mais elevados - lá vem o discurso acerca da incompetência do povo português, lento e ocioso, sempre atrasado para o trabalho e de olho numa qualquer possibilidade de conseguir um atestado médico fraudulento.

«É certo que não se trata do povo mais cumpridor da União Europeia, mas que culpa têm os portugueses de não conseguir assumir de peito aberto uma lógica capitalista que obedece a uma matriz protestante e não católica. Quando Benjamin Franklin disse Time is Money - e não te esqueças que sei do que falo pois estava lá – quis marcar uma posição: a forma como a sociedade a que Franklin pertencia passava a gerir o tempo de uma forma radicalmente diferente das sociedades católicas, onde vigorava a máxima dar tempo ao tempo. Para os norte-americanos tempo passou a significar dinheiro, ou seja o tempo passou a ser gerido em função da produtividade.

«Ora, em Portugal o tempo ainda é organizado em função dos almoços e jantares de negócios que se perdem por largas horas, em função do tempo interminável que perdem no trânsito e dos horários dos infantários, absolutamente disfuncionais para quem trabalha. A noção do tempo dos portugueses, e a forma como o gerem não é, ainda, totalmente capitalista.

«Aliás, quantos capitalistas existem em Portugal? Talvez meia dúzia. Achas pouco? Pois bem, se tirarmos os empresários cujo grande objectivo de vida é poder comprar uma boa casa de férias no Algarve; se excluirmos todos os gestores de empresas para quem a expressão formação profissional significa contratar trabalhadores ilegais a baixo custo; se pensarmos em todos aqueles que não sabem organizar as suas empresas de forma a torná-las funcionais e produtivas e para quem apostar na marca é comprar um automóvel topo de gama, se pensarmos em tudo isto constatamos que em Portugal não há capitalistas que cheguem para tornar esse país produtivo. Há sim a propensão para o entesouramento, para o não-investimento.

«A dinâmica capitalista exige não só uma nova forma de gerir o tempo mas também uma lógica de reinvestimento e de aposta nas qualificações dos empregados, qualificação essa que tem de ser constante ao longo da vida. Algo que a elite económica portuguesa não percebe ou não quer perceber, mais preocupada a pedir a protecção do Estado para fazer frente à competitividade das empresas espanholas, como verifiquei algum tempo atrás quando um grupo de empresários lusitanos entregou um abaixo-assinado ao governo pedindo protecção face à concorrência espanhola, ajuda essa que apenas é necessária para quem é incompetente. Afinal, pergunto eu, vivemos ou não num mercado aberto? Ou pretende a classe empresarial portuguesa fazer parte desse mercado de livre circulação de pessoas, bens e serviços apenas para beneficiar dos fundos comunitários.

«Mas se a elite económica prefere o lucro imediato e a fuga aos impostos, lesando o Estado e os cidadãos das verbas necessárias para a acção social do Estado, o que dizer da elite política? A falta de coragem é constrangedora, pois só a falta de coragem explica que ainda não se tenha feito a necessária reforma da máquina fiscal. Assim como ainda todos esperam o combate por parte do governo à excessiva burocracia da máquina do Estado. Esta máquina burocrática leva-lhes dias de trabalho perdido e alguns cabelos brancos por ser tão ineficaz, mas os governos nunca parecem muito preocupados. Cheguei ao ponto de verificar que é mais fácil e mais barato a um português investir em Espanha do que no seu próprio país. E a culpa é de quem? Dos portugueses, pois claro, de quem havia de ser.


«Neste momento, em Portugal, milhares de jovens recém-licenciados estão no desemprego. A inteligência diz-nos que, precisando as empresas portuguesas de quadros qualificados como de pão para a boca, alguma disfunção existirá na organização dessas mesmas empresas, impedindo-as de receber quem após anos de estudo se encontrou na posse das ferramentas necessárias para desempenhar um trabalho produtivo. Mas não é o que pensam o governo e as associações patronais. Para estes, os milhares de jovens desempregados são todos incompetentes, vítimas de um sistema de ensino incapaz de qualificar cabalmente os estudantes portugueses. Mas e a reforma do sistema de ensino? Alguém a vislumbra no horizonte sempre longínquo que é a política governativa portuguesa? E alguém acredita que todos os desempregados deste país - alguns milhares, como bem sabei - são desqualificados e assim incapazes de assegurar às nossas empresas a necessária competitividade?

- «Espera um pouco! Quando começas a falar, livra que é um vê se te avias. Eu tenho a solução.

- «Ah sim, tens? Essa quero ouvir. A última solução que ofereceste à humanidade consistia na minha morte, desculpa se estou curioso...»

- «Permites-me dar a solução para alguns dos males deste país? Pois bem, enviemos os políticos portugueses assim como os seus empresários numa viagem de circum-navegação. Ao percorrerem os oceanos, prestando homenagem a Fernão de Magalhães - os políticos gostam sempre de homenagens e o destemido navegador merece - serão deixados, pouco a pouco, em algumas paragens longínquas. Aí terão que fazer pela vida como fizeram milhões de portugueses ao longo da história. Se a memória não me falha, estes nós sabemos que, com inúmeras dificuldades, é certo, tiveram geralmente sucesso. Mas e as elites? Também teriam o mesmo sucesso mantendo o nível de mediocridade que dizes estarem habituadas? E os business men portugueses, como se sairiam de tão habituados que estão a operar com base nas falências fraudulentas e no não pagamento de impostos, como referiste? Alguém sabe responder?

Assim falava Zaratustra...

Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005

http://puxapalavra.blogspot.com/

Pedro S. (15:00)

Blog de João Abel de Freitas, Manuel Correia, Mário Lino, Pedro Ferreira e Raimundo Narciso

Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005

Editorial - E Zaratustra dirigiu-se ao povo nestes termos:

Pedro S. (24:00)
E Zaratustra dirigiu-se ao povo nestes termos:
«Eu vos anuncio o super-homem. O homem só existe para ser superado. Que fizestes para o superar?
Até agora todos os seres criaram alguma coisa que os supera, e vós quereis ser o refluxo desta grande maré e regressar ao animal em vez de superar o homem?
(...)
Exorto-vos, meus irmãos, a que permaneçais fiéis à terra e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças supra-terrestres. Conscientemente ou não, são envenenadores.
(...)
Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfémias, mas Deus morreu e com ele morreram esses blasfemadores. De ora em diante, o crime mais atroz é blasfemar da terra e ter em maior conta as entranhas do impenetrável do que o sentido da terra.
(...)
Na verdade, o homem é um rio lamacento. É preciso ser pelo menos o mar para absorver em si um rio lamacento sem se toldar.
Pois bem, eu vos anuncio o Super-homem. É ele esse mar, nele se irá perder o vosso grande desprezo.
F. Nietzsche, Assim falava Zaratustra
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